SPFW N51 – Cobertura do primeiro dia

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ALUF

Por Caroline Menis

No primeiro dia de evento do SPFW N51 pudemos contar com Ronaldo Fraga, ALUF, Anacê, Samuel Cirnansck, ÀLG e Lilly Sarti. Foram oito desfiles e também a estreia do projeto SANKOFA com a estreia da marca Ateliê Mão de Mãe e Meninos Rei. 

O ATO DE VESTIR É UM ATO POLÍTICO. Ronaldo Fraga dá início a edição N51 do SPFW com sua coleção “Terra de Gigantes” que aplaude o nosso nordeste brasileiro, enaltecendo o Cariri Cearense. 

Nas coleções de Ronaldo Fraga sempre podemos observar seu trabalho de moda desenvolvido dentro de algum tema específico, e dessa vez não seria diferente, trabalhando a moda como vetor diverso das longas histórias que se contam por meio das roupas, com o conceito relacionado ao desejo alumbrado que desespera, seduz e aterroriza. Sua coleção vem de encontro para falar de um Brasil que existe. 

Segundo o estilista, a região é uma amálgama da cultura brasileira. “Fruto das mais variadas misturas: índios Kariri, escravos, africanos malês de origem muçulmana, cristão novos e judeus fugidos da inquisição na Espanha e Portugal. Mistura que também é a base de todo povo brasileiro”. Este projeto de pesquisa foi também desenvolvido pelo Sesc Ceará, em parceria com a Fundação Casa Grande, que permite o contato direto do público com mestres artesãos em suas casas ou ateliês. 

O universo lúdico de Ronaldo Fraga transborda a paixão pela terra, com muitos bordados, cores intensas e peças feitas em linho, caracterizando a moda local, com uma coleção de registro afetivo da resistência cultural do povo brasileiro. 

“Minha moda é política, assim como todas as minhas coleções. Porém nesta, em específico, eu criei um manifesto político poético. A parte mais difícil da moda é ela falar do hoje, do agora, é sempre sobre uma releitura do passado ou uma suposta ideia de futuro. Já que o setor da moda é o vetor da reinvenção, por que não explorar o que ela pode nos dar? A indústria criativa da moda também é a cultura desse país, a história, o pensar e a ancestralidade. Se a nossa gastronomia e música nos revelam, o ato de vestir também nos revela, a moda é comunicação”, acrescenta Ronaldo Fraga. 

ONDE ESTÁ A BELEZA NO COTIDIANO? A paranaense Ana Luisa Fernandes, nos fez viajar para dentro do nosso subconsciente “Como olhar com olhos mais gentis e alertas para o mundo à nossa volta?” na nova coleção para a ALUF. 

A partir desse questionamento surge a coleção, em formato de carta coletiva, a estilista convidou os seguidores no Instagram a postarem comentários sobre os devaneios e pequenos detalhes da vida cotidiana que valorizam. Todas as respostas foram incorporadas em seu Fashion Film. 

“O processo criativo é como uma arte terapia, ou autoterapia, se pode-se assim dizer, do inconsciente coletivo. Essa coleção é intimista e representativa, de como a marca caminha pela arte e sensibilidade”, diz Ana Luisa. 

Um dos elementos vistos em sua coleção é o minimalismo correndo pelas formas e tecidos, em um impecável trabalho com linho e franjas, acentuado com pequenas bolas de madeira, trazendo charme e sofisticação para as peças. 

PROJETO SANKOFA 

DESFILE 1: ATELIÊ MÃO DE MÃE. 

O crochê ressignificado. O trabalho autoral do ateliê carrega o orgulho de ser um espelho da cultura, diversidade e representatividade cultural da Bahia. Sua equipe enxuta, liderada por Vinícius Santana, a mãe Luciene Santana, e o namorado e sócio Patrick Fortuna, transforma a paixão pela manualidade em peças coloridas e exclusivas, feitas de crochê, para um lindo artesanal brasileiro de slow fashion com peças limitadas feitas sob encomenda. 

A coleção de estreia da marca no SPFW N51, parte do conceito da palavra RESSIGNIFICAÇÃO que, no dicionário, quer dizer “atribuição de um novo sentido; ação de dar novo significado a alguma coisa: ressignificação de experiências, ação ou efeito de ressignificar”. 

O Ateliê Mão de Mãe é uma das oito marcas integrantes do Projeto Sankofa, uma iniciativa do coletivo Pretos na Moda, em parceria com o VAMO (Vetor Afro-Indígena na Moda), com o objetivo de racializar a moda nacional. 

DESFILE 2: MENINOS REI. 

Os irmãos baianos Céu e Junior Rocha utilizam cores fortes e estampas inspiradas na cultura africana em um incrível trabalho de ancestralidade através da moda com o estilo streetwear, utilizando técnicas de patchwork. 

Nesta coleção de estreia, os jovens estilistas reverenciam o orixá Exú, o pai da comunicação e movimento, mostrando seu ponto de vista, sua importância grandiosa, potencializando a beleza. A fonte de seus tecidos vem de Guiné-Bissau, usando também como fonte de inspiração a mãe-África e sua representatividade. 

Uma das peças da coleção teve relação na criação com João Pimenta, “marca madrinha” que auxiliou no processo de desenvolvimento da alfaiataria, marca registrada do estilista. 

“Este momento é representado como uma reforma na moda e no movimento dos Pretos na Moda, estabelecendo a apresentando novas identidades e a arte através de cores vibrantes e a nossa cultura ancestral”. 

RUTA. Ana Clara e Cecília fazem estreia com a sua marca, Anacé, que tem como proposta a moda agenero e atemporal. 

Nesta coleção “RUTA”, as estilistas trazem muitas peças de alfaiataria contemporânea, formas exageradas e confortáveis, sem definir os contornos do corpo, para todes. Seus produtos transitam facilmente entre o dia e a noite, podendo ser usados casualmente ou em eventos mais especiais. A Anacê busca trazer um novo olhar sobre a alfaiataria tradicional, revisitando-a e inserindo-a no contexto atual. 

“Trabalhar a dualidade do cenário com a identidade visual da coleção, uma reflexão sobre qual é o papel na moda nesse momento sobre tudo o que temos passado, nos conectando com nós mesmos e também o boom tecnológico que estamos vivendo, uma conexão com o digital então a RUTA tem a ver com isso, RUTA=ARRUDA=BANHO DE ERVAS, conexão com as espiritualidades e tradições, em dois contrapontos”. 

Os tecidos da coleção são antibacterianos e responsáveis, em parceria com a Vicunha, a tecnologia também faz parte do conceito da coleção, além da fibra natural de algodão, trazendo o aspecto da natureza, couro sintético e dualidade da matéria prima, contrapontos de texturas e fibras, tecnologia têxtil + fibras naturais.  

ÀLG. Se apresentando pela segunda vez no formato digital no SPFW, marca esportiva da A LA GARÇONNE, com direção criativa do Fábio Souza e peças desenhadas por Alexandre Herchcovitch, a vocação da marca para o streetwear com reaproveitamento de tecidos e informação de moda se inspira nos movimentos de rua, como skate e surf nessa coleção em colaboração com a Warner, inspirado no filme SPACE JAM dos Looney Tunes. 

“Não trabalhamos com temas, fazemos roupas para que os clientes queiram imediatamente comprar, já disponível para compra, uma roupa extremamente comfy, não diferenciando muito as matérias primas, usando basicamente o algodão e o nylon, pelo conceito da marca se propor ao estilo streetwear sem grandes modificações”, ressalta Alexandre. 

Entre as peças com formas amplas e confortáveis que já fazem parte do universo da marca, surgem leggings e camisetas ajustadas, com recortes de cores contrastantes. Outras novidades são as calças mais curtas, os casacos matelassados e um porta-bola de basquete. Bolsas xadrezes, tênis com animal prints, e camisetas com personagens como Piu Piu, Pernalonga e Lola. 

SAMUEL CIRNANSCK. O estilista paulista especializado em vestidos de festa e que já vestiu muitas celebridades de vestidos de noiva, desde 1999, desfila no SPFW desde 2005, sempre fazendo provocações com o universo de luxo dos bordados, das transparências e sensualidade feminina. 

Trabalhando com tecidos sustentáveis nessa coleção junto a uma empresa de tecidos homologados, rastreabilidade, com o fio chamado Liocel, que faz com que o tecido seja mais sustentável.

A inspiração para o fashion film, primeiro vídeo da marca, mostra a base do corselet com a estrutura e a sustentação da roupa como arquitetura, trabalhando apenas com as barbatanas encapadas só nos pontos de costura com o tecido, desconstruindo a roupa, trabalhando a saia em cima como trançada e amarrada. O bordado não tem tecido (bordado de bastidor), feito corrente por corrente em cima da estrutura, com o cristal, trazendo leveza em um bordado areado na desconstrução da roupa na silhueta. 

LILLY SARTIA Sustentável Leveza Do Ser.  Lilly Sarti criou a coleção de Verão 2022 pensando em nosso processo evolutivo como seres humanos. Com isso, decidiu dividir a coleção em três momentos: Percepção do Eu, Reflexão do Ser e Dimensão do Sagrado. Na prática, a ideia tomou a forma de silhuetas elegantes e descomplicadas, confortáveis mais próximas ao corpo. 

A marca trabalhou com o projeto IGUAL – plataforma que faz ações sociais, viabilizando projetos sociais, cuja parte da venda é um cashback ajudando outras pessoas associadas a essa instituição. Além disso, sua irmã e sócia Renata Sarti, lança junto com a coleção a submarca agenero Hello, dentro da Lilly Sarti. 

Em termos de matérias-primas, Lilly elegeu várias naturais, como cambraia de linho, rami, e gaze de algodão. Sem, contudo, esquecer de materiais ecologicamente responsáveis, como o que mistura fibras naturais e fios reciclados a partir de garrafas PET. Entre os  detalhes importantes, estão os tricôs com acabamentos em crochê e os mosaicos de jeans. Para complementar os looks, a estilista sugere sapatos baixos com saltos redondos ou em formato de trapézio, e flatforms que esbanjam conforto. 

A inspiração da coleção Lilly é extremamente subjetiva, a apresentação traz a força da realidade concreta. A poesia pode ser encontrada nas matérias primas e na concepção da coleção, mas a estilista sabe que o nosso dia a dia não pode ser dissociado das questões materiais. O fashion film apresenta uma linguagem contemporânea, com mulheres fortes e uma atitude confiante e plena, como é a mulher Lilly Sarti. 

Cápsula 01 • Percepção do Eu: “Tudo começa quando refletimos sobre quem somos, de onde viemos, para onde vamos e por que estamos aqui. Podemos pensar em cores, materiais e formas mais limpas, como um papel em branco que será a origem da nossa história.”

A inspiração cósmica surge no Jacquard Stella, em que fibras naturais se unem a fios reciclados a partir de garrafas PET, mais um exemplo da vasta lista de matérias-primas desenvolvidas pela marca nos últimos anos. A gabardine e o tricoline dão peso e sobriedade, enquanto o algodão Éden evoca o contato com a natureza, com suas flores e leveza. As formas são confortáveis mas não anulam o corpo, pelo contrário, é pela revelação sutil das formas femininas, em detalhes de uma modelagem precisa, que se evidencia uma feminilidade tão forte que não precisa ser devassada. 

O mix entre tecnologia e artesanal surge nos tricôs com acabamentos em crochê, e o mosaico de jeans exibe o resultado de um estudo incansável para garantir os encaixes perfeitos. O crepe, tecido normalmente presente nas coleções Lilly Sarti, dá vez ao tencel, usado aqui como um elemento tão singular quanto o momento que a humanidade está vivendo. Os tons terrosos característicos da grife estão presentes, assim como uma cartela de cores frias: azul oceano, jeans, off-white e tons naturais. 

Cápsula 02 • Reflexão do Ser: “Este segundo momento representa a hora em que percebemos onde estamos e tentamos fazer com que a nossa história faça sentido. Começo a entender quem eu sou, para onde vou, o porquê da minha vida.” 

Nada mais emblemático deste momento de autoconhecimento do que a estampa Labirinto, o sentimento de se estar perdido mas em busca da saída, que nesta fase da coleção surge em preto e vermelho Dália. 

O estudo têxtil se volta para o lastex, aplicado de forma detalhista para valorizar o colo ou criar pequenos pontos de atenção nos looks. O vestido Nero em jeans já nasce best-seller, enquanto peças como o vestido Renata mostram que não são exatamente o que parecem, com decotes inesperados que se revelam com o movimento da mulher. Azul noturno, rosa sândalo, verde sálvia, vermelho dália e amarelo calêndula fazem contraponto ao amarelo solar, um tom lavado, quase manteiga. 

Cápsula 03 • Dimensão do Sagrado: “Com a evolução constatamos que nem sempre será possível compreender totalmente a realidade à nossa volta, pois os padrões nos impedem de perceber muitas coisas.” 

A terceira parte da coleção Spring Summer 2021 exibe matérias primas naturais, a nobreza da cambraia de linho, o toque do rami, a leveza da gaze de algodão.  A estampa labirinto já se mostra menos condensada, com uma sutileza maior e tons claros, apaziguadores. A transição da Era de Peixes para a de Aquário surge literal, em peixinhos bordados de forma inocente e irregular, em amora e azul oceano sobre tecido de tom neutro, e de forma poética com o bordado cósmico, remetendo à reflexão que norteia toda a coleção. 

A grife sugere uma silhueta elegante e ao mesmo tempo descomplicada, traduzindo o desejo atual da mulher de ‘se arrumar’ sem ser over, permitindo que ela se sinta bem e confortável com a imagem no espelho. As silhuetas são perfeitamente acompanhadas por sapatos de saltos baixos redondos, um shape claramente anos 80, saltinhos em trapézio de metal, pressentindo o desejo por futuras festas, e flatforms que já nascem objeto de desejo. 

 

Confira a galeria abaixo com os destaques do primeiro dia do evento digital do SPFW edição N51.