Instituto Tomie Ohtake apresenta Design Dinamarquês – Mestres e Ícones

22 ago, 2014

Mestres e Ícones inaugura uma parceria entre o Instituto Tomie Ohtake, a Agência Dinamarquesa para a Cultura e o Museu de Design da Dinamarca, que prevê uma série de exposições de designers dinamarqueses no Brasil e de brasileiros no país escandinavo.

Esta primeira mostra no Instituto Tomie Ohtake traz a proeminência do design dinamarquês construída no século XX até os dias de hoje, por meio de 50 peças – objetos e mobiliário. A exposição destaca principalmente cadeiras, por sublinhar o modernismo orgânico, adotado pelo país e que tornou o seu design especialmente original, diferente da rigidez racionalista praticada pela escola alemã.

Depois da Guerra, foi na Dinamarca, e restante da Escandinávia de maneira geral, que o ideal modernista de produzir para a massa e entrar na vida diária das pessoas melhor se refletiu. O desenho mais orgânico propiciou o surgimento de uma indústria forte que produzia peças leves, flexíveis e dobráveis, mais aceitas e por isso mais populares.

A peça mais antiga da exposição é a luminária PH de 1926, do designer Poul Henningsen, também editor da revista Kritisk Revy (1926/28/29), crítica do formalismo técnico e estético do avant garde internacional ao qual chama de “modernistas tristes”.    Da conhecida era do ouro, os anos 50 e 60, a mostra reúne criações dos excelentes mestres que se destacaram internacionalmente, como: Finn Juhl, Hans Wegner e Arne Jacobsen e a ourivesaria de prata do fabricante Georg Jensen. Na década de 50, foi criado pelos dinamarqueses o sistema Lego, que está presente na exposição com peças daquela década e atuais. Entre os trabalhos dos anos 80 e 90 destacam-se as dos designers Jorgen Rasmussen, Verner Panton e Nanna Ditzel, enquanto do século XXI, as obras de Morten Voss, Louise Campbell, Foersom&Hiort-Lorenzen  e Christian Flindt sinalizam a continuidade da histórica excelência.

Neste pequeno, porém abrangente panorama do design dinamarquês, o curador Lars Dybdahl, do Museu de Design da Dinamarca, apresenta dez reflexões acerca da identidade desta produção. Esses pontos estão todos em jogo nos 50 objetos desta exposição, em termos de significado e uso.

 

1/ O encontro com o novo que veio de fora – moderação no diálogo com o estrangeiro
A cultura de produtos e de design dinamarqueses foi formada no encontro com o novo que veio de fora – posturas mediadoras e modificadoras e tradições têm se desenvolvido durante muitos anos de interação com o estrangeiro. Especialmente com o resto da Europa, e no século XVIII, e muito com os EUA e o Japão. No presente, foi aberto o diálogo com o Brasil e os outros países do BRICS. O diálogo com o estrangeiro normalmente tem se conectado com análise, um grande potencial inovador e soluções de design com elaboração de características técnico-funcionais de produtos.

 

2/ Construir pontes – ”preservar a continuidade do desenvolvimento”
Até os anos 60, a indústria e cultura moderna da cidade foram comparadas e pesadas de acordo com o significado da agricultura e da cultura de artesanato tradicional. E ao invés de confronto de classes, a política dinamarquesa tem se baseado mais em parceria social e um modelo de bem-estar social. No campo do design isso significou um equilíbrio profissional entre tradições estáveis e processos de modernização. Na estética de design, o normal não tem sido o rompimento radical – antes a cultura de design tem buscado “preservar a continuidade do desenvolvimento” (crítico de design italiano Augusto Morello, 1958).

 

3/ Habitabilidade – criação da atmosfera (nórdica)
Já nos anos 20, funcionalistas dinamarqueses se distanciaram dos conceitos ao mesmo tempo internacionais e avant garde de interiores de habitações. Nem a ”bomaskine” (a máquina de habitar) de Le Corbusier ou o ideal de interior espartano e frio de Bauhaus ecoaram na Dinamarca. Com uma tradição dinamarquesa e nórdica repleta de qualidade no que diz respeito à cultura de interiores – e assim, certa cisão entre a estética da habitação e a esfera pública – essa também era a ótica dos designers dinamarqueses após a segunda guerra, que estava sintonizada com refinamento de ideais de habitação modernos, simples e convidativos. A marcenaria de móveis dinamarqueses, seu design e alto grau de elaboração tem tido grande significado para a ”atmosfera nórdica clara e leve” da habitação –  e ainda é, num tempo onde o design vintage e retrô são fortes evidências da qualidade do tempo, do renovável e da autenticidade.

 

4/ Ferramenta estética, simplicidade e detalhes
Mesmo quando a estética industrial influencia o design dinamarquês, como por exemplo, em design de aparelhos, as referências ao uso de ferramentas são altamente consideradas: em requinte e exposição honesta de construções; em simples detalhes de cada objeto; no despertar das associações orgânicas; em formas polidas que mimam a aproximação das mãos, no cultivo de materiais, etc. Tudo num esforço fundamental de realizar e marcar um ’preenchimento de produto’ qualitativo e compatível com o corpo, que seja à favor do usuário; e de um desejo de deixar o produto se comunicar por si mesmo sobre seu uso.

 

5/ Artesanato (artístico) como fonte de inovação para o design industrial
A tradição de artesãos dinamarqueses de refinamento tanto da ideia quanto da forma, assim como o aprofundamento no caráter e nos tipos de materiais e potenciais, tem enriquecido a qualidade do design dinamarquês industrial. Especialmente quando o artesão também age como designer e, através disso, ativa as possibilidades de diálogo entre as formas de práticas do artesão e os processos que levam ao design do produto. A textura e a consciência do material se tornaram assim, num alto nível, um recurso histórico para o artesão dinamarquês, o design de móveis e industrial. O artesanato não é visto como uma forma de fabricação antiquada e pré-industrial – e sim como uma qualidade emocional, inteligente e sensitiva.

 

6/ Valor simbólico e associativo
Quando se fala de forma estereotípica do design dinamarquês, geralmente se evidencia a paz, a harmonia, o funcional e o discreto, a renúncia e a adaptação, o profundo respeito pelo trabalho e coisas similares. Assim, move-se a consciência precisa do valor simbólico da forma, seu potencial criador de imagens e despertador de associações, que com grande força renovadora se manifesta em 1945 em todo o campo do design dinamarquês. A cultura visual dos produtos tinha agora maior valor que anonimato, um deslocamento claro que aponta mais para o design atual escultural e significativamente interativo, do que o de “funcionalismo” que era visto nos anos entre-guerras.

 

7/ O perfil empático e social – foco no usuário
Na sua mediação entre a produção e o mercado, os designers dinamarqueses têm direcionado seu foco para o usuário e sua relação com o produto. Cuidado social e reflexão ergonômica se tornaram, dessa forma, algumas das qualidades empáticas do design dinamarquês. O clima social, mental e econômico na expansão do estado de bem-estar social também trouxe o desenvolvimento de ferramentas de ajuda para os fisicamente debilitados e de instrumentos técnico-médicos do setor social e de saúde. O modelo do desenvolvimento de produtos num trabalho conjunto entre o design e a indústria nesse campo se tornou uma marca.

 

8/ A postura antiautoritária – Ascensão para todos
A tradição dinamarquesa de radicalismo, de mente aberta e de falar contra autoridades, na ânsia de responsabilidade mútua e mudança, participação e expressão própria, tem sido muito útil para o debate democrático de questões de design de todas as espécies. Esse fator não hierárquico proporcionou o experimental e o inovativo, o sentimento de comunidade e de confrontos férteis nos estúdios e times de design. Muitos trabalhos de designers dinamarqueses dedicados à qualidade pedagógica para crianças também estão localizados de maneira central nesse contexto.

 

9/ O imperativo orgânico – sustentabilidade
Através de sua iniciativa e agitação profissionais, designers críticos contribuíram significantemente nos anos 70 para uma nova consciência do meio-ambiente, critérios de sustentabilidade e métodos de trabalho, que então foram depurados nos anos 90 quando o ”design verde” dinamarquês entrou em cena. Em paralelo com a visão de meio-ambiente que ocupava a agenda política dinamarquesa e internacional, os designers afiaram suas competências em desenvolvimento sustentável e cultura de produtos, e as exigências de usuários e leis tornaram as considerações de meio-ambiente quase obrigatórias para os fabricantes. Fair trade também se tornou na Dinamarca uma dimensão cheia de perspectivas em design e sustentabilidade.

 

10/ O novo temperamento – design dinamarquês no contexto global
O boom do design dos anos 80 e o caminho para uma nova responsabilidade dos anos 90 enfraqueceram aparentemente a pegada moderada do design dinamarquês. Muitas sementes de um presente e futuro eficaz de design foram plantadas nesses anos: uma libertação de um temperamento expressivo e inovador em combinação com novas tecnologias e um crescente engajamento humanístico e sustentável na discussão das necessidades humanas e sociais. O desejo totalmente necessário de pensar além da ”tradição nacional” e a vontade de contribuir para uma nova agenda internacional, onde os produtos indiferentes nunca serão um trabalho para o valioso designer.

 

Como atores na sociedade globalizada, os designers dinamarqueses vivem e fazem designs tanto no plano internacional quanto regional, com estúdios e relações de trabalho que hoje existem tanto fisicamente no local quanto digitalmente em aplicativos na Internet.  Um ponto de partida na cultura de design nacional influencia ativamente e especialmente nas tendências retrôs à busca de identidade e segurança, que como tal florescem tanto entre os designers quanto entre os usuários. Mas igualmente forte é também a prontidão para o globalismo – uma liga de mudança do “nosso próprio” representa a estabilidade, e a dose extra e picante do novo surpreendente que vem de fora, interceptado, e incorporado talvez inconscientemente ou de modo bastante estratégico.

Esse é o encontro no conceito peculiar ‘o glocal’ – o global unido de forma complexa com o local. E a questão complicada sobre o futuro nacional de caráter condicional do design – Não vai desaparecer, ou se tornar inativo e vazio de calorias nos processos globalizados difusos de natureza econômica, política e cultural do presente e do futuro? Em todas as circunstâncias, é preciso discutir num plano que desconstrua a mitologia.  Na prática de design futura, a transferência de design e amostragem intercultural são alguns dos pontos focais, e os produtos substanciais exclusivos são desenvolvidos para muitos que mexem com a realidade.

 

 

Design Dinamarquês – Mestres e Ícones
Abertura: 20 de agosto, às 20h
Até 28 de setembro de 2014.
Entrada franca

Instituto Tomie Ohtake
Av. Faria Lima, 201 (Entrada pela Rua Coropés, 88) – Pinheiros SP
Fone: 11.2245-1900
De terça a domingo, das 11h às 20h – entrada franca

Por Lara Müller
Fotos: Divulgação

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